SÃO
PAULO – Recoleta, Père-Lachaise, as pirâmides
do Egito. Mais do que famosos pontos turísticos de Buenos
Aires ou Paris, são, ao mesmo tempo e em primeiro lugar,
aquilo para o que foram criados: cemitérios. A ideia de que
é lúgubre ou de mau gosto visitar esses locais sagrados
há tempos caiu em desuso e é unânime a teoria
de que são "museus a céu aberto", tanto
que prefeituras e órgãos públicos de todo o
mundo promovem excursões e repassam incentivos. Em São
Paulo, não é diferente: o Cemitério da Consolação
oferece visitas guiadas para que o público possa viajar em
poucos metros pela história da cidade e conhecer aspectos
curiosos do passado.
Os
cemitérios foram criados no Brasil somente após a
Independência, já que até aquela época
os corpos eram enterrados nas igrejas – a proximidade com
os santos, acreditava-se, facilitaria a entrada das almas no paraíso.
A aristocracia brasileira, principalmente durante o Segundo Reinado,
começou a adornar seus túmulos com estátuas
para demonstrar sua superioridade, seguindo o modelo europeu.
Na
capital paulista, esse fenômeno começou a partir do
Ciclo do Café, graças à imensa expansão
econômica e populacional que a cidade viveu. Diversas famílias,
principalmente imigrantes, enriqueceram da noite para o dia. Como
não tinham muitos meios de expor sua nova condição,
quando algum parente morria optavam pela construção
de grandes monumentos funerários. Apesar do catolicismo pregar
a igualdade social dos mortos, a ostentação dos túmulos
confirmava exatamente o contrário. |
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Por
isso, os cemitérios servem como uma espécie de radiografia
dos diversos períodos de uma sociedade. A distribuição
dos jazigos, as obras de arte, a arquitetura, o local das capelas
mortuárias – tudo tem sua razão de ser, dentro
da lógica da época em que aconteceu.
Patrimônio
de São Paulo
Oficialmente
aberto em 15 de agosto de 1858, o Cemitério da Consolação
se destaca nacionalmente no campo da arte cemiterial. Inaugurado
às pressas devido a uma epidemia de varíola que varreu
a cidade, recebia pessoas de todas as classes sociais. Décadas
depois, passou a abrigar apenas membros da elite, cujas famílias
podiam pagar os altos preços dos lotes.
A
barreira econômica fez com que proliferassem túmulos
suntuosos, concebidos por artistas como Victor Brecheret, Bruno
Giorgi, Celso Antônio de Menezes e Rodolfo Bernardelli, todos
escultores de renome na arte brasileira.
Como
se as obras por si só já não bastassem, o passeio
também permite conhecer o local onde estão enterradas
diversas personalidades nacionais, como Mario e Oswald de Andrade,
Tarsila do Amaral – trio expoente do modernismo –, Monteiro
Lobato, os ex-presidentes Campos Sales e Washington Luís,
o ex-governador paulista Ademar de Barros e a Marquesa de Santos,
entre muitos outros, facilmente localizáveis nos guias distribuídos
aos visitantes.
A
visita monitorada faz parte do projeto "Arte Tumular",
idealizado pelo Serviço Funerário da prefeitura, graças
às pesquisas realizadas pelo historiador Délio Freire
dos Santos. Grupos a partir de quatro pessoas podem marcar visitas
guiadas pelo cemitério, que geralmente ocorrem de segunda
a sexta-feira, às 10h ou 14h. O telefone para agendamento
é (11) 3396-3815 ou 3396-3833.
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