Projetos Culturais\Política Cultural\ Marketing Cultural\Consultoria
 
                 
   
PATRIMÔNIO
         
                 
O ano da reinvenção das utopias    
 
Texto publicado orinalmente em Gazeta Mercantil - Sexta-feira, 2, e fim de semana, 3 e 4 de janeiro de 2009 | E1
Governo federal cria o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e aprova o Estatuto Brasileiro de Museus, promovendo um momento histórico para estas instituições no País
 
JOSÉ DO NASCIMENTO JUNIOR*
MARIO CHAGAS**
CLAUDIA MARIA STORINO***
ENEIDA BRAGA ROCHA****
BRASÍLIA

Na comunidade dos países dos ibero-americanos, o ano de 2008 foi consagrado pelos chefes de Estado e de governo como o “Ano Iberoamericano de Museus”. Uma agenda com a participação de 22 nações, envolvendo mais de 900 eventos, incluindo exposições, seminários, palestras, visitas especiais e espetáculos culturais foi produzida e lançada no começo do ano.

Além disso, o ano de 2008 foi vincado por notáveis marcos de memória: foram comemorados os 200 anos da transferência da família real portuguesa para o Brasil e nessa esteira um expressivo conjunto de gestos civilizatórios, como a criação do Jardim Botânico, do Banco do Brasil, da Biblioteca Nacional, do Museu Real e outros; foram comemorados também os 100 anos da imigração japonesa; os 50 anos do Seminário Regional da Unesco sobre o papel educacional dos museus, realizado no Museu
de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro; os 40 anos do movimento libertário que eclodiu em 1968 e que no Brasil tem seu marco de memória na passeata dos 100 mil, realizada no dia 26 de junho no Rio, ocasião em que um dos seus participantes, o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, completava 26 anos. Nesse mesmo ano (1968), a reação das forças conservadoras produzia o AI 5, endurecia o regime militar e iniciava os chamados anos de chumbo. Em 2008 foramcomemorados ainda os 20 anos da
promulgação da denominada Constituição Cidadã.

Como se vê, motivos não faltaram para se pensar e repensar os lugares de memória (temporais e espaciais) e seus vínculos com a produção de esquecimento, poder e resistência. Por mais importantes que tenham sido as antropofagias da memória do passado, há, pelo menos no mundo dos museus, um fato que representa uma eclosão de novidade, uma explosão de futuro. Estamos nos referindo à criação do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e à aprovação do Estatuto Brasileiro de Museus, no dia 18 de dezembro de 2008.

Se há um gesto cultural, político, econômico e social que a partir de 2008 possa projetar-se no futuro como uma novidade, e ainda assim possa articular passado e presente, esse gesto pode ser compreendido como a criação do Ibram, expressão
potencializada dos museus e da museologia no Brasil, espaço criativo de sonhos e utopias, memória que fabula a memória futura.
Os museus resultam de projetos que articulam no mesmo tempo e no mesmo espaço as relações entre poder e memória. Nesse
sentido, pode-se afirmar que em todos os museus estão presentes e articulados entre si projetos políticos e projetos poéticos, projetos que podem servir para conformar e domesticar as vontades ou para afirmar as liberdades e transformar as realidades.

A criação do Ibram, somada a aprovação do Estatuto de Museus, está sem dúvida situada entre os mais expressivos acontecimentos na história dos museus no Brasil nos últimos 200 anos. Trata-se de uma ação sem precedente no campo museológico. O ano da reinvenção das utopias brasileiro e evidencia a realização de um trabalho de longo fôlego, dedicação
e perseverança realizado por equipe qualificada e construído por intermédio de um diálogo bem alinhavado entre o governo
federal e a sociedade civil, entre o Poder Executivo (Ministério da Cultura e Ministério do Planejamento) e o Poder Legislativo (Câmara e Senado). Trata-se do estabelecimento singular de uma política de memória que tem suas bases assentadas
numa nova imaginação museológica, criativa e criadora.
Trata-se, por fim, de um projeto político e poético que redesenha utopias e ressignifica o passado, o presente e o futuro.

O universo dos museus brasileiros está em expansão e em movimento. Quando a família real portuguesa chegou ao Brasil, em
1808, existia por aqui apenas um museu; cem anos depois (1908), existiam por aqui 10 ou 12 museus. Expansão pequena. Movimento lento. Em dezembro de 2008, de acordo com os dados do Cadastro Nacional de Museus, existiam no Brasil 2.607 museus. Expansão extraordinária. Movimento acelerado. A maioria absoluta desses museus foi criada após a segunda metade do século XX.

Parece importante reforçar alguns números que mostram a força do museus brasileiros. Somos hoje a 6a- maior rede de museus do mundo. Nossas instituições preservam mais de 200 milhões de bens culturais, gerando mais de 40 mil empregos diretos. Entre 2001 e 2007 os museus movimentaram mais de R$ 1,5 bilhão, impulsionado pelo salto de 2003 a 2008 de 15 milhões para
29 milhões de visitantes por ano. Tudo isso indica a vitalidade do campo museal e a decisão acertada de criação do Ibram, cujos principais objetivos são: promover e assegurar a implementação de políticas públicas para o setor; divulgar e difundir os acervos musealizados e passíveis de musealização; qualificar e valorizar os trabalhadores de museus; estimular e apoiar a criação de instituições museológicas; promover e apoiar processos educacionais e linhas de pesquisa na área dos museus; estimular
ações que visem à comunicação, à preservação e à gestão do patrimônio cultural musealizado e garantir o direito das comunidades organizadas de participarem dos processos de definição do patrimônio a ser musealizado.

A criação do Ibram é o epílogo de um ciclo marcado pelo lançamento da Política Nacional de Museus (PNM), em 2003, e a abertura
de um novo horizonte de trabalho e, portanto, o início de novos desafios. Nos últimos cinco anos, o panorama museal brasileiro
passou por profundas e aceleradas mudanças. Da inexistência de uma política pública que orientasse a ação do Estado no campo
museal, da falta de informações e de reconhecimento das especificidades do setor, da escassez de recursos orçamentários passou-se a uma situação promissora, ainda que longe de ser a ideal. O programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva levado pelo Ministério da Cultura, hoje dirigido pelo ministro Juca Ferreira, reconheceu e tratou o setor dos museus como diretriz política na área do patrimônio e da memória, reforçando a importância de se estruturar uma política específica, valorizando o patrimônio cultural musealizado, reconhecendo o seu valor estratégico na afirmação de identidades locais, regionais e nacionais e
apontando a necessidade de promover a reestruturação do setor.

O nascimento do Ibram impõe novos desafios. Em primeiro lugar, será necessária uma readaptação do campo museológico a essa nova realidade, o que implica, entre outras coisas, ajustes de práticas, de mentalidades e de interlocução. Será necessário investir no ingresso de novos quadros para o mundo dos museus, garantindo maior poder de realização do Ibram, maior capacidade de gerenciamento dos programas, projetos e ações sob sua responsabilidade e também a sua projeção segura num futuro em movimento.

Um outro desafio a ser enfrentado são a modernização dos museus e o cumprimento de suas funções educacionais e sociais, com a valorização das áreas de preservação, comunicação e pesquisa. Para isso, é necessário investir na ampliação do orçamento público federal visando à melhoria da gestão da política de museus.

É importante registrar que, nos anos de 2001 a 2003, o investimento total anual foi de R$ 20 milhões; após a implantação da
PNM, os investimentos foram crescentes, chegando em 2007 a mais de R$ 116 milhões. A meta do Ibram é ampliar os recursos
orçamentários em mais R$ 120 milhões. Para isso o apoio à criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento dos Museus (FNDM),
cujo projeto está em tramitação no Congresso, é fundamental.

Os desafios e os planos de trabalho do Ibram para os próximos anos são muitos e passam: pelo enraizamento social da PNM, pela
ampliação da acessibilidade nos museus e pelo desenvolvimento do Programa Ibermuseus, do qual fazem parte o Cadastro
Ibero-americano de Museus e o Observatório Ibero-americano de Museus. Além disso, é fundamental criar uma rede de museus de
arte contemporânea capaz de promover a articulação entre artistas, museus de arte contemporânea e museus vinculados aos movimentos sociais e de criar programas de intercâmbio ampliado (dimensão nacional e internacional) de artistas residentes com atuação em comunidades populares.

Será igualmente importante desenvolver programas de aquisição de acervos para os museus do Ibram — incluindo, evidentemente,
a produção de arte contemporânea, os acervos históricos, antropológicos e outros — e investir nas melhores condições físicas e ambientais dos imóveis que abrigam os museus. Ao lado desses desafios, o Ibram desenvolverá o trabalho iniciado pelo Departamento de Museus e Centros Culturais (Demu), anteriormente ligado ao Iphan: dará continuidade ao mapeamento da diversidade museológica brasileira e ao programa de formação profissional, incluindo bolsas e estágios; realizará fóruns, debates e seminários sobre os museus no mundo contemporâneo; desenvolverá projetos e programas sobre a “poiesis” dos museus; consolidará a Rede Museus, Memória e Movimentos Sociais; desenvolverá um programa editorial consistente e inovador e ampliará
o programa de apoio a museus comunitários, ecomuseus, museus indígenas e museus de comunidades quilombolas.

O Ibram abre um novo ciclo, uma nova semeadura. Nesse sentido, podemos afirmar que o instituto renova a utopia museal, não como utopia conservadora que prega o fim da utopia e o fim da história, mas como uma utopia crítica que ressignifica a memória e reinventa agora o futuro. Nesse quadro, as parcerias são fundamentais. Vida longa para o Ibram!

*Antropólogo e diretor do Demu/Iphan
** Museólogo e coordenador técnico do Demu/Iphan
***Arquiteta e coordenadora do Núcleo de Arquitetura e Design do Demu/Iphan
****Administradora e gerente de Articulação e Fomento do Demu/Iphan
JORGE BISPO

     
 
Fachada do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio; Brasil possui hoje mais de 2.600 museus, que preservam mais de 200 milhões de bens culturais e movimentaram mais de R$ 1,5 bilhão em seis anos
 
       

home - topo da página

contato@quixoteart.com.br